01/07/2014

A vida dos salgueiros em flor


Salix salviifolia Brot. subsp. salviifolia


Os salgueiros, a quem cabe a missão de sublinhar a verde o curso azul dos rios, têm pressa de deitar folha nova para mais cabalmente cumprirem a sua tarefa. Por uma questão de eficiência e de optimização de recursos (onde é que já ouvimos tais palavras?), aproveitam a mesma ocasião para florir. Como a Primavera é ainda notícia longínqua, há pouca gente a notar-lhes as flores, que indivualmente não são muito vistosas mas dão à árvore o aspecto de ter sido salpicada com pó amarelo. Quando chega a época de dispersar as sementes, elas vêm envoltas numa penugem branca para mais facilmente serem transportadas pelo vento. Os choupos, que são aparentados com os salgueiros, cumprem igual calendário. Muita gente, ao ver esse "algodão" esvoaçante, ou essa falsa neve que nunca se desfaz em água, julga tratar-se de pólen; e, incomodada, atribui a choupos e salgueiros a culpa de tosses e alergias causadas pelo verdadeiro mas invisível pólen que outras plantas libertam na mesma altura.

Tanto salgueiros como choupos são dióicos: é esse o termo botânico para descrever o facto de haver indivíduos dos dois sexos, fenómeno que é a regra entre os animais mas anda longe de o ser entre as plantas. Nas imagens em cima podem ver-se as inflorescências masculinas (fotos 1 e 5) e femininas (fotos 3 e 4), umas e outras com as flores reduzidas ao essencial: as masculinas só têm estames, as femininas só carpelos. São as plantas com flores femininas, e só elas, que produzem o tal algodão de (injustificada) má fama.

A espécie de salgueiro que hoje nos ocupa, de seu nome Salix salviifolia, é endémica da metade oeste da Península Ibérica. Embora menos abundante do que a borrazeira-preta (Salix atrocinerea), a borrazeira-branca — como é conhecida entre nós — encontra-se distribuída de norte a sul do país. Com o seu pequeno porte, que raramente atinge seis metros, é mais propriamente um arbusto de que uma árvore. Apresenta folhas acinzentadas, penugentas e rugosas, de não mais que 10 cm de comprimento, e amentilhos que não excedem os 7 cm. Prefere instalar-se junto a rios ou ribeiros com grande variação sazonal do volume da água, ou até junto a cursos de água temporários. Se comparada com a borrazeira-preta, a sua menor versatilidade ecológica significa que a borrazeira-branca, apesar de não ser propriamente rara, tem vindo a perder grande parte do habitat com a construção de barragens. A imagem abaixo, que mostra uma galeria de borrazeiras-brancas no ponto onde o rio Tinhela se junta ao rio Tua, dá um exemplo das perdas irremediáveis que serão causadas pela construção da barragem de Foz Tua. Parece, contudo, que nada disso é importante, pois mesmo com uma paisagem destruída o Douro continuará a ser "património mundial".


confluência do rio Tinhela com o rio Tua

1 comentário :

bea disse...

Grande ignorante que sou...sempre imaginei que os salgueiros eram aquelas árvores de ramos arqueados para baixo e a que nunca achei grande piada. Estes até que me parecem melhor e mais enxutos (apesar da bordadura verde nos rios).