15.11.17

Dona Genciana & C.ª

A ideia generalizada de que as abelhas estão apenas interessadas no néctar das flores, que recebem como pagamento pelo serviço de levar o pólen de umas plantas para outras, deve-se por certo a alguma desatenção quanto ao comportamento destes insectos. Tanto as flores como as abelhas precisam de pólen. O néctar, feito essencialmente de açúcar e água, dá energia às abelhas na sua lide diária; mas elas, e sobretudo as crias, precisam também de proteínas, e o pólen é a melhor fonte desse alimento que conhecem. Isto significa que, embora para a reprodução das plantas convenha que a abelha deposite noutras flores o pólen que leva, ela desdobra-se em mil cuidados para levar todo o pólen que puder para casa. Surpreende-nos que este paradoxal acordo entre espécies se venha mantendo com sucesso.

Este conflito de interesses quanto ao uso do pólen levou naturalmente a adaptações tanto nas flores como nos insectos. Nas flores há inúmeros mecanismos que reduzem o desperdício de pólen, seja pelo formato dos grãos de pólen que nem todos os insectos conseguem agarrar, ou pela posição da corola onde o insecto aterra de modo a que o pólen se deposite numa parte mais segura da abelha, ou ainda pela presença de zonas translúcidas nos tubos florais que guiam alguns visitantes até aos nectários enquanto passam despercebidos a outros. Tudo afinado para não se comprometer a capacidade de atrair os insectos adequados, enquanto se repelem os meros ladrões de guloseimas. Por seu lado, as abelhas tornaram-se mais eficientes na colheita e transporte do pólen, e a evolução deu-lhes a possibilidade de aprenderem depressa e bem quais as flores mais recompensadoras, em comunidades em que se copiam livremente as abelhas mais espertas.


Gentiana angustifolia Vill.




Gentiana verna L.



As plantas do género Gentiana são em geral polinizadas por abelhas, embora em algumas espécies haja também borboletas a ajudar no processo de fecundação. A morfologia e o ciclo destas espécies fornecem amplos exemplos das adaptações que mencionámos. O caso da G. pneumonanthe, de corolas pintalgadas de dourado, é especial: em alguns habitats, estabeleceu uma interacção peculiar com duas outras espécies, uma borboleta azul (Maculinea alcon), que desposita os seus ovos nos tubos da flor, e uma formiga vermelha (Myrmica scabrinodis), em cujas colónias as larvas da borboleta caem, se alimentam e crescem, libertando assim a planta dessas criaturas vorazes.

A Península Ibérica abriga várias espécies do género Gentiana, algumas anuais, outras bianuais ou perenes, que parecem preferir regiões frias - as que, neste canto sudoeste da Europa, vão rareando. É na Ásia, sobretudo nas montanhas chinesas, que se concentra a maioria das cerca de 360 espécies conhecidas. Nas fotos acima, as primeiras flores, vistas em afloramentos calcários da Cantábria, são versões gigantes da G. pneumonanthe; as outras, do pico Tres Mares, com corolas de bordos largos e quase planos, são muito mais pequenas e rasteiras, mas nascem em tapetes vistosos de um azul intenso (com os centros assinalados a branco) onde as abelhas se banqueteiam felizes.

7.11.17

Irmã cantábrica

Havendo bons carvalhais na Cantábria, a verdade é que a árvore aí dominante nos bosques naturais mais bem conservados é a faia (Fagus sylvatica), que, a não ser em jardins ou em plantações florestais, não existe neste nosso rectângulo ocidental. Essa diferença em ponto grande anuncia outras diferenças em ponto pequeno: também os arbustos e herbáceas que revestem o sub-bosque são outros que não os que existem por cá. Com excepções importantes, como o Hypericum androsaemum, a Linaria triornithopora, a Daboecia cantabrica, o Polygonatum odoratum e a Aquilegia vulgaris. Essas espécies tão características dos nossos bosques nortenhos sentem-se igualmente em casa em habitats nemorais no extremo norte de Espanha -- embora, em rigor, a versão da erva-pombinha (Aquilegia vulgaris) que se encontra na cordilheira cantábrica se distinga da nossa pelo maior tamanho das flores e pela sua diferente coloração.



Saxifraga hirsuta L.



Esta saxífraga, que encontrámos em bosques, taludes frescos, margens de ribeiros e de um modo geral em lugares húmidos permanentemente ensombrados, foi um desses casos em que ao reconhecimento se sucedeu a estranheza. O que reconhecemos, por serem exactamente iguais às da Saxifraga spathularis, que sabíamos frequentar lugares semelhantes, foram as hastes erectas, avermelhadas e peludas de onde brotavam inúmeras floritas brancas salpicadas de amarelo ou rosa. Mas as folhas de pecíolo longo e fino, limbo arredondado e hirsuto, cordiforme na base, não batiam certo com as folhas coriáceas, glabras e (quem diria?) espatuladas da S. spathularis. Essa variação foliar, de tão marcada, impunha que se tratasse de outra espécie. E assim era: a Saxifraga hirsuta teve a honra de ser baptizada por Lineu, que lhe pôde dar um nome inteiramente apropriado na sua simplicidade. Sorte de pioneiro, quando os nomes simples e óbvios ainda estavam todos por usar. Mas Brotero, que deu nome à Saxifraga spathularis, também não tem razões de queixa.

As folhas das duas espécies, S. spathularis e S. hirsuta, dispõem-se em rosetas basais compactas que vão surgindo espaçadamente ao longo dos rizomas, formando tapetes de extensão apreciável. Nos Pirenéus espanhóis ocorre uma terceira saxífraga ibérica muito semelhante a estas duas, a S. umbrosa, e já fora da Península Ibérica, desde a vertente francesa dos Pirenéus até aos Alpes, uma derradeira espécie, a S. cuneifolia, vem completar um quarteto de (quase) sósias.

Em quase toda a extensão da cordilheira cantábrica, a S. hirsuta é a única representante do quarteto, mas no extremo leste ela já se faz acompanhar pela S. umbrosa, e nas Astúrias, a caminho da Galiza, vai dando lugar à S. spathularis. Chegámos a ver as duas espécies nos taludes da mesma estrada, mas não, infelizmente, nos mesmos lugares, perdendo assim a oportunidade de observar possíveis híbridos. A hibridação é quase inevitável quando elas partilham o mesmo espaço: não parecem existir quaisquer barreiras genéticas entre as duas espécies, e os híbridos, ao contrário da norma, são férteis, capazes de se reproduzir por semente. Dito de outro modo, se (como muitas vezes se defende) fosse a interfertilidade a determinar o conceito de espécie, então a S. hirsuta e a S. spathularis seriam a mesma espécie, apesar das evidentes diferenças morfológicas entre elas.

Em teoria, esta promiscuidade pode fazer com que uma das espécies seja inteiramente assimilada pela outra, ou que as duas convirjam para uma forma intermédia. Não há grande receio de isso suceder na Península Ibérica, onde a área de contacto é pequena, mas na Irlanda, onde ambas também ocorrem, o perigo é real. Aí a S. spathularis é dominante e a S. hirsuta é rara, mas todos os núcleos conhecidos da segunda estão bem dentro da área de distribuição da primeira. Um artigo publicado em 2014 (ver aqui) concluiu que, na Irlanda, as populações híbridas já suplantam as de S. hirsuta; e que mesmo as populações tidas como desta espécie raramente são formadas por indivíduos "puros", tendo em média 20% do material genético herdado da S. spathularis.

Noutras paragens, a "extinção por hibridação" é uma ameaçada potenciada pelo aquecimento global, afectando em particular as espécies de alta montanha. O mecanismo é simples: espécies que, devido ao habitat inóspito, permanceram isoladas durante milénios, ganham a companhia de congéneres arrivistas que, com as temperaturas mais amenas, conseguem agora sobreviver em altitudes mais elevadas. Se houver compatibilidade reprodutiva, as segundas, mais versáteis, podem absorver as primeiras, assim se perdendo endemismos de distribuição muito restrita. Este tema foi explorado num artigo de 2015 com um título premonitório: The silent extinction: climate change and the potential hybridization-mediated extinction of endemic high-mountain plants.

1.11.17

Nobreza figadal



Hepatica nobilis Mill.



Resolvamos juntos o exercício de identificar esta planta que, não ocorrendo em Portugal, é bastante frequente na metade leste da Península Ibérica, tanto em bosques como em taludes rochosos calcários resguardados por alguma sombra. É uma herbácea perene e algo peludinha, de porte rasteiro e flores solitárias (brancas, azuis ou arroxeadas) que nascem entre Março e Maio, quando os carvalhais ou faiais ainda não se cobriram de folhagem e alguma luz penetra até ao solo.

Comecemos por anotar o que é peculiar nas folhas: são basais, coriáceas, glabras mas de margens ciliadas, com as faces manchadas de púrpura, trilobadas e cordiformes na base (como o símbolo do naipe de paus nos baralhos de cartas). A morfologia das flores ajuda-nos a descartar algumas famílias (por exemplo, não se trata de um trevo pois faltam a quilha e o estandarte usuais nas flores das leguminosas). Além do arranjo simples e simétrico das tépalas (cinco ou mais), há inúmeros estames ao centro. O conjunto lembra-nos um tipo de anémona comum no Gerês. Temos, portanto, um palpite quanto à família: Ranunculaceae. É quanto basta para, consultando um guia de plantas (das Astúrias, mas poderia ser do Japão, não fosse o problema da língua), descobrirmos o nome do género (Hepatica, em alusão às manchinhas nas folhas, como as que marcam as faces de alguns doentes do fígado) e da espécie (nobilis, que indica fama, seja ornamental seja terapêutica).

Este género, de que se conhecem umas sete espécies no hemisfério norte (a mais recente é um endemismo chinês), é em algumas Floras incluído em Anemone, recebendo então a Hepatica nobilis a designação Anemone hepatica que Lineu lhe atribuiu. Há, porém, uma diferença relevante a separá-los: na Hepatica não existem folhas caulinares, havendo apenas três brácteas formando uma espécie de cálice na base das flores. Nestas não se vê sinal de néctar, e (diz quem sabe) são as formigas as responsáveis por dispersar as sementes. Estas são verdes quando maduras, e cada um dos numerosos aquénios (veja na 1.ª foto) contém exactamente uma.

24.10.17

Cárice peluda


Fuirena pubescens (Poir.) Kunth



Porque o deserto não é uma praia esticada até ao infinito, os beduínos preferem envergar grossos capotes em vez de optarem pelo traje sumário dos banhistas. O mesmo princípio leva certas plantas adaptadas à secura extrema (como este cacto) a cobrirem-se de pêlos para se protegerem do sol e minimizarem as perdas de água. Inversamente, as plantas que vivem em ambientes alagados pouca necessidade têm de tal resguardo, esperando nós, por essa razão, que elas sejam glabras ou a caminho disso. Esta ciperácea, amante de charcos como tantas outras da sua família, não parece estar de acordo com tal dedução, embora também não seja dos contra-exemplos mais eloquentes. A parte hirsuta da planta, a que se refere o epíteto pubescens, concentra-se na bainha das folhas, nos pedúnculos e nas inflorescências, enquanto que a parte por vezes submersa, que é a base do caule, fraca pilosidade apresenta.

O nome Fuirena homenageia o médico e botânico dinamarquês Jorgen Fuiren (1581-1628), ainda que esse género, englobando umas 60 espécies, seja predominantemente tropical e do hemisfério sul. Dessa lista, a F. pubescens é a única espécie (tangencialmente) europeia, por surgir na Península Ibéria, Itália e algumas ilhas do Mediterrâneo (Córsega, Sardenha, Baleares, Chipre, etc.), mas de resto tem uma distribuição vastíssima, abrangendo quase toda a África, o Médio Oriente, a Ásia tropical, a Austrália, a Papua Nova Guiné e muitas outras ilhas do Pacífico. Em Portugal aparece sobretudo nos charcos e represas que pontuam as grandes extensões arenosas do Ribatejo e do Alto Alentejo.

Se o habitat não ajuda a diferenciar a F. pubescens de outras espécies semelhantes (Bolboschoenus glaucus e Schoenoplectus lacustris, por exemplo), podemos notar que ela, além de ser peluda como as outras não são, é uma planta de menor envergadura, não ultrapassando, em regra, os 75 cm de altura (o Bolboschoenus atinge facilmente 1 metro de altura, e o Schoenoplectus lacustris mais que duplica essa marca).

18.10.17

Flores do arco-íris

Hibernar não é, como sabemos, um privilégio dos ursos. Nas montanhas que se cobrem de neve quase todo o ano, são inúmeras as espécies de plantas que, tendo começado por arriscar pouco sendo anuais, evoluíram para formas perenes ou que geram sementes que, como as princesas dos contos de fadas, adormecem por longos períodos sem perder a viabilidade. Adequar-se com prudência a esse habitat extremamente frio, que só permite uma espreitadela ao sol numa fracção mínima do ano, exigiu adaptações minuciosas, e decerto várias tentativas até ao sucesso. No caso do género Androsace, um dos poucos com espécies a viver acima dos 4000 metros, o que notamos hoje é que as rosetas basais de folhas cobertas de penugem da Androsace villosa sem dúvida a beneficiam, pois as almofadinhas de folhas agasalham melhor a base frágil da planta e asseguram estabilidade em fissuras rochosas de taludes inclinados e expostos. E também nos parece que, num habitat com tanta brancura, as flores alvas têm maior chance de sobreviver aos predadores, não deixando de ser avistadas pelos polinizadores graças ao centro da corola mais garrido (como é usual na família Primulaceae). E não diriam igualmente que formar tapetes de flores é um excelente plano para uma planta rasteira com flores minúsculas como estes jasmins-da-rocha?


Androsace villosa L.



Pois sim, acreditamos que estes aspectos morfológicos são adaptações ao ambiente, mas como se confirmam cientificamente estas opiniões? Fomos à procura de artigos científicos neste assunto, e encontrámos publicações de botânicos empenhados em comprovar que as condições climáticas nas montanhas do hemisfério norte ajudaram a moldar a forma e o ciclo de vida que hoje conhecemos em algumas espécies do género Androsace, criando oportunidades valiosas de colonização.

Para testar as inúmeras hipóteses sobre os possíveis mecanismos de pressão selectiva, houve que criar modelos matemáticos que simulassem vários cenários de evolução, a interacção gradual com o habitat e a variação mais ou menos aleatória das condições necessárias à viabilidade das plantas. Juntaram-se-lhes análises genéticas para aferir o grau de diversidade de várias espécies conhecidas neste género (que somam cerca de 110), adaptadas a distintas ecologias, e para quantificar outros sinais filogenéticos com valor estatístico. Em resumo, as conclusões dos cientistas revelam que é bastante provável que, neste caso, haja uma conexão relevante entre a ecologia e a evolução morfológica: quando as espécies ancestrais de Androsace, com regimes anuais, chegaram a zonas mais frias e de maior altitude sem poder retroceder, a forma almofadada da folhagem foi a inovação que lhes conferiu a resistência e a tolerância adequadas ao clima agreste.

As drásticas alterações climáticas que a humanidade está a impor à Terra, combinadas com a reduzida capacidade destas herbáceas de migrar rapidamente para outros nichos, podem levar a que estes ajustes ao clima e ao meio ambiente, que nos parecem tão fantásticos, as condenem afinal a desaparecer depois de milhões de anos de esforço de sobrevivência em regiões montanhosas dispersas, isoladas e antes fragmentadas pela neve. Com elas se apagará um legado notável na história geológica e evolutiva do planeta.

10.10.17

Malva das ilhas douradas


Lavatera olbia L.



As ilhas douradas são as de Hyères, na Riviera francesa, destino de veraneio para gente abastada, um eterno pôr-do-Sol numa esplanada com palmeiras, brisa tépida, mar rumorejante embalando iates adormecidos. Foi lá, dois séculos antes de o turismo ser inventado, que esta Lavatera olbia ganhou o nome que hoje ostenta. Olbia era o nome grego da cidade de Hyères, e nestas coisas da taxonomia botânica já Lineu dava o exemplo ao preferir um nome obsoleto, numa língua morta, à designação vernácula. O que neste caso pode dar confusão, pois existe na Sardenha uma cidade que ainda hoje se chama Olbia, mantendo esse nome desde os primórdios da civilização helénica.

O postal turístico do Mediterrâneo exclui a chuva. Talvez a água que corre das torneiras e enche piscinas não venha do céu, mas de mananciais subterrâneos inesgotáveis, que não têm necessidade do mau tempo (como chamam os jornalistas aos dias de chuva) para serem recarregados. É com surpresa que aprendemos que esta Lavatera olbia, mediterrânica de baptismo, gosta de sítios com alguma humidade ou mesmo encharcados, como sejam as margens de pequenos rios ou ribeiras. Haverá tal coisa nas ilhas de Hyères, a maior delas com 7 Km de comprimento? Talvez a proximidade da água doce não seja, para esta malva, um requisito essencial. Lembramo-nos de a ver, há meia dúzia de anos, junto à ribeira da Fórnea, na serra dos Candeeiros. Nessa altura, como quase sempre, nenhuma água corria no leito pedregoso, mas a memória do efémero caudal de Inverno era suficiente para atrair umas tantas plantas higrófilas. O segundo encontro, em Alcobaça, aconteceu num mês de Maio chuvoso, com ribeiras extravasando dos leitos e inundando caminhos, e já não pudemos duvidar da predilecção deste arbusto pela água.

Arbusto muito ramificado, capaz de atingir dois metros e meio de altura, com flores de 5 a 7 cm de diâmetro, a Lavatera olbia, que se dá melhor em substratos calcários ou argilosos, ocorre na metade oeste da bacia mediterrânica, tanto no norte de África (Árgélia, Marrocos, Tunísia, Líbia) como na Europa (Itália, França, Espanha e Portugal). No nosso país está assinalada na Beira Litoral, Estremadura, Alentejo e Algarve. Pode confundir-se com a L. arborea, que no entanto é de menor porte, menos ramificada, apresenta flores com uma coloração diferente (as pétalas têm uma mancha escura, quase negra, na base), e prefere (embora não exclusivamente) areias litorais.

3.10.17

Os ursos chamam-lhe um figo

Esta é época propícia ao fabrico de alguns licores e aguardentes, um expediente para aproveitar frutos demasiado maduros ou que não são suficientemente doces para outro tipo de consumo. Por exemplo, a safra do medronho (Arbutus unedo) não tardará a começar para que as bagas de casca rugosa e cor-de-fogo não se percam desfeitas no chão. O amadurecimento dos frutos, começados a produzir há um ano, decorre em paralelo com a floração do ano corrente, e por isso recolhê-los é tarefa que exige cuidados. Em poucos meses haverá nova aguardente de medronho, feita com mais paciência do que esforço. Na Península Ibérica só ocorre esta espécie de Arbutus, mas outrora em Espanha já houve outras duas: Arbutus alpina L., cujo fruto parece um apetitoso araçá negro, e Arbutus uva-ursi L., com bagas vermelhas muito vistosas e comestíveis, mas igualmente pouco saborosas em cru. Apesar das semelhanças com o medronho, estas duas espécies foram mudadas em 1825 para o género Arctostaphylos, mantendo-se os epítetos específicos. Ambas parecem apreciar solos calcários de montanha, e foi nesse tipo de habitat na Cantábria que vimos os exemplares das fotos.


Arctostaphylos uva-ursi (L.) Spreng.




Os arbustos de A. uva-ursi são de porte rasteiro e têm folhas persistentes, de textura coriácea, que se arranjam em hélice ao longo do caule. As flores nascem na Primavera em cachos de delicadas campainhas com os bordos revirados, um formato típico na família das ericáceas.

As referências sobre nomes botânicos que consultámos indicam que a designação genérica arctostaphylos significa literalmente cacho de uvas (staphyle) de urso (arktos). O epíteto uva-ursi diz exactamente o mesmo, mas em latim. Peculiaridades de um tempo em que o latim (com uns pozinhos de grego) era a língua culta obrigatória para quem queria comunicar em ciência, como é hoje o inglês.

26.9.17

Anémona das neves


Anemone pavoniana Boiss.



Estávamos no local errado e no dia errado, e os dois erros, cancelando-se um ao outro, permitiram-nos ver uma flor impossível. No início de Maio, a Anemone pavoniana, endémica da cordilheira cantábrica, não deveria estar em flor a 2000 metros de altitude, quando ainda os picos se cobriam por esfarrapados mantos de neve em degelo acelerado. E de facto não estava: as duas plantas que encontrámos, abrindo cada uma a sua flor como quem espreita cautelosamente por cima de um muro, vinham apenas fazer o reconhecimento do terreno. E o terreno não conferia com aquele que lhes é prescrito nos manuais. A Flora Ibérica, prestigiada publicação à qual todas as plantas do reino de Espanha e da república de Portugal devem obediência, determina que a espécie vive apenas em rochas calcárias, inexistentes no Pico Três Mares e nos cumes vizinhos. Dando-se conta do equívoco, e sob ameaça de pesada coima, era natural que estes emissários, de volta à base, alertassem os seus companheiros para a inadequação do lugar. É pois de crer que, mesmo depois de toda a neve derreter, mais nenhuma destas anémonas tenha ousado florir por essas bandas.

Quem quiser ver a Anemone pavoniana em floração na altura própria, e num habitat mais conforme às preferências decretadas para a espécie, deve aguardar pelo início de Junho e visitar então um dos muitos afloramentos calcários que preenchem o extremo norte da Península, desde o País Basco às Astúrias. Com caules que podem atingir os 50 cm de altura (as que vimos, ainda incipientes, dificilmente chegavam aos 10 cm) e flores brancas de 3 a 4 cm de diâmetro, esta é uma das sete espécies ibéricas do seu género. Para lá dos Pirenéus, em França, Itália e nos Balcãs, surge uma sósia da A. pavoniana, a A. baldensis, moradora em prados alpinos. Não sendo fácil detectar diferenças entre as duas com base apenas em fotos, é irresistível apontar que a (acidental?) presença da primeira no Pico Três Mares parece mais de acordo com a ecologia da segunda.

19.9.17

Uma távoa para el-rei


Dois dos últimos teixos (Taxus baccata L.) dos Açores



Há por toda esta ilha em redondo muita e grossa madeira de cedro, sanguinho, ginja, pau branco, faias, louros e, sobre toda, a madeira de teixo, somente no Pico, dos teixos que estão sobre a freguesia da vila de São Roque, da banda do norte, légua e meia da dita vila para dentro da serra, onde se acham paus de teixo muito direitos, que parecem paus de pinho e quase servem para mastros de caravelas pequenas, e de grossura no pé até (...) palmo e meio, e daí, adelgaçando para cima, pera a ponta, a modo de paus de pinho, e na nascença deles, da semente que deles cai, como semente de tamujo, não parecem senão pinhos. Há troncos destes que acham ainda agora debaixo da terra, de oito e dez palmos de comprido e de três palmos de largo, os quais servem pera escritórios e mesas muito ricas e fasquiaria de escritórios, por ser madeira de muito preço, pela qual razão se não corta, senão com expressa provisão do provedor da Fazenda de Sua Majestade, e da que é avaliada na Alfândega paga o que a colhe a metade ou, de duas távoas, uma para el-rei, de seus direitos.
Gaspar Frutuoso (1590). Saudades da Terra (Livro VI, capítulo 41)
O teixo, talvez por prometer durar até ao dia do juízo final, era plantado tradicionalmente nos cemitérios. Apesar da sua longevidade, é de entre as nossas árvores nativas uma das mais raras e perseguidas. Em todo o território nacional, só na serra do Gerês existem populações viáveis, capazes de subsistir e de se reproduzir sem ajuda humana. Na serra da Estrela conhecem-se apenas indivíduos isolados, que têm sido duplicados por estaca para reintrodução na natureza. O gradual desaparecimento do teixo em espaços naturais não se deve apenas, como poderia julgar-se pela citação de Gaspar Frutuoso, ao seu uso em marcenaria de luxo. Houve uma perseguição activa por parte dos pastores, que, sabendo-o altamente venenoso, receavam as consequências mortais para o gado que dele fizesse refeição.

O teixo também é nativo dos Açores e da Madeira, e também nesses arquipélagos, pelas mesmas razões que ditaram a sua sorte no continente, ele se fez de uma extrema raridade. A última contagem, reportada em artigo publicado já em 2017, indicava que na Madeira existiam 58 indivíduos adultos, acantonados em ravinas inacessíveis. O relevo menos acidentado das ilhas açorianas não proporcionou igual refúgio - e, de todas as ilhas onde se sabe ter existido (Corvo, Flores, Faial, Pico, São Jorge e São Miguel), só no Pico, onde ocorria em maior quantidade e a sua madeira foi explorada até meados do século XVIII, o teixo não está ainda extinto. Só quando o último teixo morrer, de pé ou tombado, de morte natural ou provocada, é que se pode declarar o óbito da espécie. São quatro ou cinco as árvores que resistem, meio decrépitas, afastadas umas das outras, incapazes de dar semente.

O Jardim Botânico do Faial, apostado em evitar o previsível desfecho funesto, lançou um 2013 um projecto de reprodução vegetativa desses últimos teixos açorianos. O objectivo final é recriar populações que possam perpetuar-se sozinhas. No início de 2017, trinta jovens teixos foram plantados no Pico, em terreno controlado pelos serviços regionais do Ambiente (ver notícia aqui e aqui). É um novo futuro para uma árvore que parecia condenada. Só falta, literalmente, que o projecto dê frutos - ou seja, que entre as árvores clonadas haja indivíduos dos dois sexos (coisa que ainda não se sabe) para ser possível a produção de sementes. Poderão um dia as futuras gerações de açorianos, contemplando rebentos de teixo, concordar com Gaspar Frutuoso em como eles se parecem com jovens pinheiros?

A quem se interrogue sobre a importância de salvar nas ilhas uma espécie que, com maior ou menor abundância, é espontânea em quase toda a Europa, duas respostas se podem dar. A primeira, generalista, é que qualquer extinção local de uma espécie representa um empobrecimento do mundo natural, com consequências que não sabemos avaliar. A segunda é que, tanto no caso do teixo como no de outras espécies que colonizaram as ilhas, a estirpe insular representa um património genético distinto do da continental, mesmo que isso não tenha reconhecimento taxonómico nem se traduza em diferenças morfológicas óbvias. E na verdade, segundo um artigo publicado em 2010 (Taxus baccata in the Azores: a relict form at risk of imminent extinction), o teixo açoriano, além da sua especificidade genética, distingue-se pelo menor tamanho das folhas. O autores do artigo concluem mesmo que ele representa uma linhagem mais antiga do que os actuais teixos do continente europeu e do norte de África.

Numa terça-feira de Agosto, faz hoje quatro semanas, Pedro Casimiro (director do Jardim Botânico do Faial) e Cátia Freitas (uma das responsáveis pelo Banco de Sementes do JBF) apresentaram-nos esses venerandos e ameaçados teixos. Nunca poderemos retribuir por igual tamanha amabilidade. A expedição, algures no Pico, a uns novecentos e tal metros de altitude, foi acompanhada por uma chuva mansa, que esmoreceu gradualmente, e por um nevoeiro algo mais persistente que nos impediu de tirar fotos decentes. Os três exemplares que planeávamos visitar, representando 3/4 dos teixos conhecidos na ilha, situam-se todos em manchas de arvoredo rodeadas por pastagens de bovinos. A postura agressiva de umas tantas vacas em defesa das crias ditou um desvio do percurso, ficando assim um dos teixos por visitar. O prémio foi terem o Pedro e a Cátia descoberto um teixo que nunca tinham visto, o que representa um reforço de 25% da população conhecida da espécie. Será esse o teixo-fêmea que faltava detectar? Prémio adicional foi termos encontrado, no vale encaixado de uma ribeira sem água, um solitário exemplar de Euphrasia grandiflora, espécie raríssima no Pico. E fartámo-nos de ver erva-do-capitão (Sanicula azorica), mas sem surpresa para ninguém.

Devíamos talvez ficar agradecidos às vacas por tão frutuosa alteração de planos. Sucede que foi a monocultura da vaca, intensificada a partir dos anos 80 do século passado com os subsídios comunitários, a ditar em pouco mais de 20 anos uma redução de 50% do que restava da vegetação natural dos Açores, desbastada a eito para a abertura de pastagens. O processo foi particularmente notório e intenso na ilha do Pico. De modo que estes fragmentos de bosques delimitando pastagens, ainda que belos, são parte de uma coisa muito maior que se perdeu para sempre, e que há trinta ou quarenta anos ainda existia. Tudo para fazer as vacas felizes.

13.9.17

Trovisco rosado

De acordo com estudos experimentais que simulam a rotina de polinizadores, as abelhas têm uma preferência inata por certas cores, aquelas que nas flores costumam estar associadas a mais néctar, ou a um néctar mais nutritivo, ou a outras recompensas. Esta é uma enorme vantagem para a abelha iniciante na lida de recolha de alimento, como o é um mapa actualizado numa viagem a uma região mal conhecida. Mas, de facto, a cor da flor não é a única preocupação da abelha. A visão das abelhas em voo só lhes permite identificar a que flor se dirigem quando já estão quase em cima dela. E, nesse momento, há que corrigir o ângulo de navegação, manter o equilíbrio enquanto reduzem a velocidade, localizar um lugar vago e seguro na flor (que não raro abana com o vento) para aterrar, e fazê-lo sem a danificar. Se a flor for perfumada e exibir uns salpicos de cor que contrastem, assinalando o caminho até ao néctar ou ao pólen, a manobra é naturalmente mais fácil. Se, apesar de seguirem o mapa, a flor onde aterram for afinal desconhecida mas se revelar um pote de guloseimas, as abelhas não desperdiçam a oportunidade de lá voltar: sacrificando a rapidez da colheita, memorizam os traços mais significativos da flor, apreendem demoradamente as mudanças de parâmetros da cor com o ângulo de abordagem e a incidência da luz, e traçam uma rota optimizada para a reencontrar (algo que os instrumentos de GPS não sabem ainda fazer sozinhos).

Pelo que vemos por aí, as plantas mantêm constante a cor das suas flores, e este é talvez o sinal mais fiável para o polinizador as identificar. Mas a longo prazo, algumas alterações genéticas podem introduzir variações que se revelam lucrativas, e a selecção natural tenderá a valorizar as características da flor que mais agradam aos visitantes. As primeiras flores, que se acredita terem sido esverdeadas, evoluiram para atrair polinizadores; por isso, o modo como estes vêem e distinguem as cores determinou a paleta dominante (amarelo, violeta, branco, vermelho) que hoje reconhecemos nas flores silvestres. Nos troviscos, de que em Portugal há registo de duas espécies, a Daphne laureola e a (muito mais comum) Daphne gnidium, só conhecíamos flores brancas ou de cor creme. Na nossa visita à Cantábria em Maio aprendemos que este género sabe tirar proveito de mais cores.


Daphne cneorum L.




Circulávamos numa estrada íngreme no Parque Natural dos Collados del Asón, ladeada por montes calcários, quando, pelo rabo do olho, nos pareceu ver umas manchas de um tom de rosa invulgar. Parámos, claro, para averiguar, e foi uma agradável surpresa descobrir uma população magnífica deste trovisco com flores carmim. É da natureza humana apreciar o que é belo e raro: já se sabe que, se por cá as flores de Daphne fossem cor-de-rosa, seriam as esbranquiçadas que nos entusiasmariam. Mas ainda não estava tirada a terceira fotografia do novo trovisco, e já a polícia de trânsito surgia ao fundo da ladeira para inquirir daquele estacionamento inusitado. Felizmente havia mais exemplares no topo da estrada, e a sessão de fotos pôde aí completar-se em sossego. Notem como as folhas são coriáceas e formam arbustos rasteiros, com as flores (sem pétalas; o tubo rosa, muito perfumado, é feito de sépalas) agrupadas em grinaldas nos ápices dos ramos. Nesta excelente página sobre a flora do Mediterrâneo listam-se mais algumas espécies de Daphne com flores invulgares.

5.9.17

Pensamentos roxos



Viola bubanii Timb.-Lagr.



Tal como o sedentarismo provoca a obesidade, também a domesticação fez inchar as violetas de forma doentia, a ponto de elas renegarem as origens e passarem a chamar-se amores-perfeitos. Houve um tempo em que essas flores, banalizadas em canteiros geométricos e arrumadinhos, eram o epítome do kitsch, do colorido extravagante, do gosto preguiçoso e padronizado. O que ofendia não era cada amor-perfeito em si (embora alguns exagerassem nas cores e no tamanho) mas o uso desregrado dessas flores e a ausência de quase tudo o resto. Porém essa fase, que durou décadas, pretence ao passado, e hoje em dia já compensa gastar tempo a admirar amores-perfeitos nos poucos locais onde ele resiste. Não passou a haver maior variedade de flores em espaços públicos, muito pelo contrário, mas agora o que se vê são petúnias. Petúnias de todas as cores e só petúnias, em jardins públicos, em floreiras à porta dos restaurantes, em rotundas pequenas e grandes, em tristes varandas suburbanas.

Os amores-perfeitos pertencem ao género Viola, e foram criados ao longo dos séculos XIX e XX, por hibridação e selecção, a partir de espécies como a Viola tricolor, Viola lutea e Viola altaica. O nome violeta, usado para designar as pequenas flores silvestres, pareceu aos horticultores insuficiente para abarcar as novas e avantajadas flores de jardim. Daí que cada língua tenha inventado para elas um termo novo mais ou menos evocativo: em português amores-perfeitos, em francês pensées, em castelhano pensamientos, em inglês pansies. Tirando o nome português, os outros têm a mesma raiz, e derivam todos do nome francês: "pansy" resulta da tentativa (falhada) dos ingleses de dizer "pensée", e até nestas coisas de flores foram os franceses, e não os espanhóis, que estiveram na raiz do pensamento.

O pensamento, na acepção castelhana do termo, deveria pois referir-se apenas às violetas cultivadas. No entanto, a crer no portal Anthos, há quem assim designe também as violetas silvestres. Ainda que seja educativo lembrar que essas velhas aristocratas descendem de floritas plebeias, é pena que se perca, na linguagem corrente, a diferenciação entre as duas linhagens. Mas esse é um problema dos espanhóis, não nosso.

Problema nosso é que esta violeta ou pensamiento de flores tão distintivas, de seu nome Viola bubanii, que acenando-nos numa berma de estrada nas Astúrias nos obrigou a uma paragem de emergência, também deveria existir em Portugal, no Parque de Montesinho, e nos últimos anos ninguém tem dado por ela. Será que apenas por cá esteve em visita efémera, na década de 1980, para que Carlos Aguiar pudesse então assinalá-la [PDF - ver pág. 133] como novidade para a flora portuguesa? Também em Espanha ela não é abundante, distribuindo-se muito esporadicamente pelas montanhas de Orense, Léon e cordilheira cantábrica, e atravessando com dificuldade a fronteira francesa.

Para uma violeta silvestre, a V. bubanii tem flores grandes, de 2 a 3 cm de diâmetro, que se apresentam com um ar muito vertical e empertigado, rematadas por um esporão cónico bem afiado. É uma planta perene, de solos ácidos, que vive em prados de montanha ou, a altitudes mais baixas, sob abrigo de matos em sítios com alguma humidade.