28.6.17

Globos de ouro

As sépalas, quando existem, são a parte mais externa da flor, que a agasalha, protege dos predadores e até pode servir de pires para que o pólen não se desperdice. São componentes estéreis, que nascem antes dos outros orgãos da flor, num arranjo em que, sobrepondo-se, cobrem completamente o botão que se está a gerar. Como as pétalas, são folhas modificadas, e não são raras as que contêm espinhos, penugem irritante ou glândulas com produtos tóxicos para desencorajar quem queira estragar a flor em formação. Unidas, criam um cálice que torna mais robusta e estável a ponta da haste onde a flor aberta se apoia. Depois de as flores serem fecundadas, as sépalas costumam secar e cair; todavia, se necessário, endurecem e mantêm-se vigilantes, agora em defesa do fruto e das sementes. São em geral verdes como as folhas, mas tal como acontece com a nossa roupa, podem ficar maiores do que o resto da flor, ou até serem a parte da flor que tem a cor mais vistosa e, por isso, recebe a função adicional de atrair os polinizadores. É o que se passa, por exemplo, com as tulipas, os malmequeres-dos-brejos e as flores globosas, a lembrar tangerinas, que hoje vos mostramos.


Trollius europaeus L.



Têm cerca de 5 cm de diâmetro e são solitárias, nascendo entre Maio e Julho no topo de um talo erecto que pode chegar aos 70 cm. Na base, as folhas redondas mas muito divididas ajudam a identificar a família (Ranunculaceae) desta planta. Cada flor exibe uma dezena de sépalas amarelas que se curvam para esconder um feixe de outras tantas pétalas fininhas, sem graça mas com nectários apetitosos, e numerosos estames. Há decerto um momento em que estão ligeiramente abertas, mas não tivemos sorte em presenciá-lo; contudo, pode ver mais pormenores aqui, ou nesta ilustração da espécie T. chinensis. O nome do género, Trollius, que Lineu adoptou quando o descreveu em 1753, deriva da designação suíça trollblume (flor redonda) para esta planta.

Trata-se de uma herbácea perene de prados permanentemente húmidos e bosques frescos, margens de riachos e zonas turfosas de montanha. É venenosa para o gado que, meticulosamente, a ignora. Há populações magníficas de T. europaeus na Europa mais fria, mas na Pensínsula Ibérica só há registos dela na metade norte. Estes exemplares são da orla de um riacho em Somiedo, algures a caminho da reserva dos ursos pardos.

20.6.17

Na pista da Pistorinia


Pistorinia hispanica (L.) DC.



Às vezes dá ideia que a fronteira luso-espanhola foi desenhada com o único intuito de nos espoliar de plantas interessantes. O roubo de Olivença, empurrando a linha fronteiriça uns quilómetros para oeste, foi tavez planeado para que alguma planta até então também nossa deixasse de existir em território português. Infelizmente, estão por estudar as motivações botânicas nas disputas territoriais entre estados vizinhos. Numa época de fronteiras abertas, em que as maiores diferenças entre cá e lá são as matrículas dos automóves e a dificuldade em encontrar um restaurante que nos sirva sopa, não é este um tema de pesquisa que atraia muitos eruditos. Podemos sem dificuldade visitar essas plantas que nos foram negadas, mas ainda dói pensar que não são nossas. Nessa partilha tão desigual, há géneros botânicos (como Sempervivum, Androsace e Petrocoptis) bastamente representadas na Península (cada um com pelo menos meia dúzia de espécies) que estão tristemente ausentes da flora portuguesa.

É assim motivo para moderado regozijo saber que a Pistorinia hispanica é também portuguesa, embora só saibamos dela na margem direita (a nossa) do Douro internacional, e em tão escasso número (vimos umas dez plantas em flor) que a sua futura permanência por cá é incerta. A sua preferência por margens arenosas de rios explica o seu gradual desaparecimento por perda de habitat. Em Portugal não há grande ou médio rio que esteja livre de barragens, e é pouco provável que a Pistorinia ainda exista, como reportava Franco na Nova Flora de Portugal, no Tejo ou no Sabor. Neste último, com o recente enchimento da barragem, as margens e as plantas que lá viviam foram afogadas numa extensão de 40 Km.

O número de espécies de Pistorinia é incerto: estão descritas umas seis, mas alguns nomes são tidos como sinónimos. Confirmadas (e documentadas com fotos nesta página) estão três espécies distribuídas entre a Península Ibérica e Marrocos; a que nos ocupa é um endemismo ibérico. Todas elas são plantas anuais carnudas, de porte erecto e baixa estatura (a P. hispanica não excede os 20 cm de altura), com flores tubulares dispostas em cimeiras. A decoração extravagante das "pétalas" -- ou, mas precisamente, dos segmentos terminais em que a corola se divide -- é a marca mais distintiva da Pistorinia hispanica: sobre um fundo rosa choque, traçam-se a vermelho três riscos paralelos, rematados por uma mancha também vermelha como se a flor pintasse as unhas.

13.6.17

Olho de pássaro

Este ano retornámos à Cantábria, mas viajámos em Maio, dois meses mais cedo do que na visita anterior. Da nossa agenda constavam algumas das espécies de montanha que em Julho de 2015 já só tinham frutos para nos mostrar. Mas desenganámo-nos logo à chegada: é difícil acertar na melhor data para ver esta e aquela flor. Restarão, pois, sempre motivos para lá voltar.

Desta vez, em alguns locais a neve ainda não tinha derretido, e as plantas, cautelosas, aguardavam em folha até que o tempo aliviasse. Exemplo disso foi a Pulsatilla vernalis, que estava em flor, sim, mas teimosamente fechada. Pensámos nisso, mas não cedemos ao impulso de lhe forçar as pétalas; demos mais uma volta pelo Pico Tres Mares para lhe dar tempo de acordar, mas nem assim. Outra desilusão foi a Paris quadrifolia que, abrigada nas fissuras de rocha calcária do Picon del Fraile, tinha a haste floral a assomar mas parecia encolher-se para evitar a chuva fria que entretanto desabou sobre nós. Nos fantásticos bosques de faias, por outro lado, a pressa era outra. A maioria das herbáceas tem de florir enquanto há luz, antes que as folhosas tapem o solo com a sua sombra cerrada. Por isso, em muitos deles (mas não em todos, como vos contaremos), da Hepatica nobilis, da Anemone nemorosa, do Allium ursinum ou da Oxalis acetosela já só havia folhas. Contudo, nas turfeiras de alta montanha (acima dos 1300 metros), a natureza parecia regular-se pelo mesmo relógio que nós. E num terreno muito encharcado, entre inúmeros pés de martaguinho, lá estavam as flores que procurávamos, acabadas de fazer.

Primula farinosa L.


Esta é uma espécie perene que ocorre nas montanhas do norte e centro da Europa até ao Ártico, com plantas baixinhas (3-12 cm de altura, raramente mais) e muito atraentes. Nas flores em tom carmim destaca-se o centro amarelo, numa combinação que a alguns lembra um olho de pássaro. As folhas com formato de colher, unidas numa roseta basal, parecem polvilhadas de farinha (justificando o epíteto farinosa), mas são de facto revestidas a lã-de-prímula para agasalhar a haste floral erecta.

O género Primula parece especialmente bem adaptado a regiões frias, ocorrendo a maioria das 500 espécies em prados ou escarpas abrigadas dos Himalaias, ainda que haja também registo de algumas nas montanhas do norte de África. O nosso clima cálido não parece permitir, nem na serra da Estrela, grande variedade de prímulas, e o contingente por cá reduz-se à P. acaulis.

6.6.17

Dedaleira do Douro


Digitalis amandiana Samp.



A dedaleira é das plantas mais comuns no nosso país, e uma das poucas a que a generalidade dos portugueses sabe dar nome. Aprendemos, ainda crianças, que as dedaleiras são tóxicas, embora de facto só sejam perigosas se ingeridas em doses significativas. É pouco provável que tenhamos alguma indisposição só por enfiar o dedo numa flor (pois ela parece mesmo um dedal) ou por rebentá-la na palma da mão. Nesta época do ano, em que as dedaleiras floridas alegram terrenos baldios e bermas de estrada, cabe lembrar que mesmo uma planta tão corriqueira não é isenta de mistérios. Esses cachos de flores rosadas, bonitos mas gastos aos nossos olhos pela habituação, não podem, em rigor, ser declarados inconfundíveis, porque são várias as espécies que se escondem sob o mesmo aspecto geral. É verdade que aquela que Lineu baptizou como Digitalis purpurea é a mais abundante, mas no interior do país entre o Douro e o Tejo a Digitalis thapsi (dedaleira-peganhenta ou pegajo) faz-lhe aguerrida concorrência, chegando a suplantá-la na prontidão com que coloniza os taludes das auto-estradas. E, em certas zonas do alto Douro vinhateiro, particularmente em Carrazeda de Ansiães, a D. purpurea é substituída por uma espécie endémica da região, a D. amandiana, originalmente descrita por Gonçalo Sampaio em 1905. (A descrição de Sampaio foi reproduzida por Júlio Henriques, em 1906, no vol. XXII do Boletim da Sociedade Broteriana.) Tal como a sua congénere, a D. amandiana dá-se bem em terrenos perturbados, conseguindo assim sobreviver à fúria herbicida com que os vinicultores vêm dizimando a flora espontânea duriense.

Se compararmos a Digitalis amandiana (fotos em cima) com a D. purpurea (em baixo), as diferenças são notórias. O caule da D. amandiana é inteiramente glabro, enquanto que o da D. purpurea é peludo de alto a baixo. As folhas da D. amandiana são glabras, luzidias, estreitas, grosseiramente serradas nas margens -- em completo contraste com as da D. purpurea, que são penugentas, baças, largas, finamente dentadas. A corola da D. amandiana é exteriormente glabra, enquanto que a da D. purpurea está coberta de pêlos. Há também diferenças no cálice: os da D. amandiana são abertos, com sépalas largas e arredondadas; os da D. purpurea têm as sépalas comparativamente estreitas, mais ou menos pontiagudas, e encostadas à corola. Tudo somado, são mais óbvias as disparidades entre a D. amandiana e a D. purpurea do que entre a segunda e a D. thapsi. Não por acaso, são frequentes os híbridos entre a D. thapsi e a D. purpurea nas zonas onde as duas coexistem, mas nunca ninguém reportou um híbrido natural entre a D. amandiana e a D. purpurea.

Contudo, o reconhecimento deste endemismo duriense não tem sido unânime. João do Amaral Franco, que por certo nunca viu a planta, decretou, na sua Nova Flora de Portugal (vol. 2, 1984), que D. amandiana era simples sinónimo de D. purpurea subsp. purpurea. A Flora Iberica (vol XIII, 2009) não cometeu esse erro, substituindo-o por outro um pouco menos grave: considerou que a singularidade da D. amandiana merecia apenas ser reconhecida ao nível de subespécie, ficando ela a chamar-se D. purpurea subsp. amandiana. Não menos plausível, embora igualmente arbitrário, teria sido subordiná-la à D. thapsi, chamando-lhe D. thapsi subsp. amandiana ou, como já sucedeu, D. thapsi var. amandiana.

(Sobre a Digitalis amandiana, leia-se ainda o informativo texto que, em 2009, Carlos Aguiar aqui publicou.)


Digitalis purpurea L.

31.5.17

Orquídea pálida

Os jornais anunciaram há dias a descoberta, em local longínquo do universo, de planetas talvez parecidos com a Terra, mas que têm órbitas muito mais demoradas em torno dos respectivos sóis. O movimento de translação desses planetas à volta das suas estrelas leva centenas de anos terrestres a completar-se. Se nos tivesse calhado uma dessas Terras, poderíamos viver toda a vida na Primavera. Claro que também haveria o risco de só conhecermos o Inverno; ou de termos de suportar o imortal cansaço de Verão. Imaginemos, porém, um cenário eternamente florido. Um regalo, sim, mas teríamos de abrir mão da alternância de estações e de paisagens, das migrações dos bandos de pássaros, do ritual de hibernação dos ursos, da luz do Outono, da folhagem nova dos carvalhos, do assombro num campo amarelo de narcisos, de muita arte e ciência. E também não existiriam as plantas que, no rigor do Inverno, se recolhem ao subsolo reduzidas a um bolbo -- uma cebolinha que, misteriosamente, guarda intacto o programa para gerar sem erro novas folhas e flores meses depois.

Felizmente, vivemos numa Terra caprichosa e apressada, onde inúmeras espécies se adaptaram às mudanças tornando-se perenes, embora dependentes do ninho onde se resguardam quando a neve e a penumbra lhes cobrem o torrão. Como esta orquídea de prados alpinos e bosques de montanha que vimos em Fontibre, na Cantábria, e reencontrámos em Somiedo, nas Astúrias, e que, ao primeiro olhar, quase confundimos com a Dactylorhiza sulphurea.


Orchis pallens L.



Desconfiámos da identificação pelo porte bem mais robusto (cerca de 50 cm de altura) da orquídea do norte de Espanha, pelas 4 a 6 folhas grandes, brilhantes e não maculadas, como as das Barlias, pela ausência de brácteas que entremeiam a inflorescência e por as flores terem o capuz pálido, quase branco. Na verdade, pertence até a outro género, Orchis, mas o engano é desculpável: descrita em 1771 por Lineu com o epíteto pallens, foi rebaptizada em 1825 por John Sims como Orchis sulphurea. Há, porém, outro equívoco, desta vez benéfico, associado a esta orquídea: apesar de não ter néctar para oferecer, é polinizada por abelhas que, atraídas pelo perfume e coloração das flores, julgam que estão a visitar outras plantas com floração semelhante e que são nectaríferas. O mais curioso é que o logro continua a funcionar mesmo quando as plantas que esta orquídea imita não estão presentes. Naturalmente, um tal estratagema exige astúcia e impõe alguns constrangimentos: a orquídea tem de conviver no mesmo habitat do modelo, com necessidades climáticas e ecológicas idênticas; precisa de começar a florir mais cedo para conseguir ludibriar mais polinizadores antes de eles encherem a barriga nas plantas com néctar; e tem de se manter em flor por um período mais longo para poder beneficiar de mais instâncias em que o logro resulte. O ardil é um achado pois, apesar de localmente a Orchis pallens ser rara, a sua distribuição inclui quase todas as grandes cordilheiras montanhosas da Europa.

23.5.17

Abróteas de todo o ano


Asphodelus serotinus Wolley-Dod



Há quem diga, brincando, que todos os cogumelos são comestíveis, só que alguns apenas uma vez. Os cogumelos não são a melhor escolha para os suicidas que optam pelo envenenamento, pois a dolorosa agonia prolonga-se por vários dias. Em qualquer caso, movidos pela morbidez ou desejando apenas uma boa refeição, convém saber o que levamos à boca. Há plantas venenosas (e até letais) cuja perigosidade é neutralizada pela cozedura ou por algum outro modo de preparação, e que são parte importante da dieta de certos povos. É esse o caso da mandioca, omnipresente na culinária brasileira. E o mesmo poderia suceder na região mediterrânica com as plantas do género Asphodelus, conhecidas colectivamente como abróteas.

As abróteas contêm asfodelina, um alcalóide tóxico que acelera o ritmo cardíaco e pode provocar a morte. Certo é que o gado, pressentindo o perigo ou simplesmente desdenhando-as pela fraca palatibilidade, não lhes põe o dente, e por isso elas se vêem aos milhares em zonas intensamente pastoreadas e sujeitas a fogos frequentes. Uma vez cozidas, contudo, as abróteas são inofensivas; e, diz quem lhes provou as folhas tenras condimentadas com azeite e sal, francamente saborosas. Também as raízes, engrossadas em tubérculos, são susceptíveis de aproveitamento culinário, como substitutas das batatas.

São oito as espécies de Asphodelus recenseadas em Portugal continental. Com excepção da abrótea-fina (Asphodelus fistulosus), muito mais pequena do que as outras, são todas muito parecidas. Só não são indistinguíveis porque os frutos variam bastante de formato. O A. serotinus acima no escaparate, fotografado no final de Abril algures a sul do Tejo, tem os frutos pequenos e algo pegajosos, em forma de pêra e de um verde brilhante. Também ajuda ter em conta a distribuição e a época de floração: as espécies que encontramos no norte do país (basicamente duas: A. lusitanicus e A. macrocarpus) não são as mesmas que existem no centro e no sul; e há aquelas que florescem muito cedo (A. ramosus, de Fevereiro a Março), outras na Primavera (A. lusitanicus, A. serotinus), e outras ainda no Verão (A. aestivus). Temos abróteas para o ano inteiro, mas não sempre as mesmas nem em todos os lugares ao mesmo tempo.

17.5.17

O que não se vê


Aphanes australis Rydb.

É da família das rosas e grácil, mas tão pequenina que se julgaria difícil encontrá-la. Contudo, são raros os interstícios entre paralalepípedos de rua, ou as gretas e bermas de campos de cultivo e pousios, onde ela, frágil e prostrada, não surja no Verão. Com um ciclo de vida anual, depende bastante da sorte para se manter em tais habitats; mas, quando o solo é seco, arenoso e com baixa ocupação, forma tapetes densos e muito macios pela penugem que cobre toda a planta.

Sendo tão inconspícua, admiramo-nos que tenha nomes populares. Uma breve consulta a manuais de farmacopeia, porém, revela a razão: talos e folhas têm propriedades medicinais muito benéficas, embora agora em desuso. Não surpreendentemente, quase todas as designações se referem a detalhes morfológicos das folhas, afinal a parte mais visível da planta: salsinha, falsa-salsa, pé-de-leãozinho. Para além das folhas em leque, muito divididas e sem pecíolo, consegue-se notar como as flores minúsculas, esverdeadas, hermafroditas e apétalas, se aninham bem aconchegadas na base das folhas e protegidas pelas estípulas. Este pormenor justifica o nome dew cup (taça de orvalho) que lhe atribuem em inglês.

O género Aphanes abriga umas vinte espécies, das quais cinco estão registadas em Portugal. São de facto todas muito parecidas, mal se distinguindo pelo formato e tamanho das estípulas, das flores e dos frutos, sobretudo quando são plantas jovens. Alguns estudos apontam também para um acentuado parentesco (genético, do que não se vê) entre estas espécies e as do género Alchemilla. Uma mudança taxonómica aumentaria o nosso contingente neste último género, de que só se conhecem as populações de Alchemilla transiens da serra da Estrela.

9.5.17

Praias de pouco andar



Cyperus capitatus Vand.



O regresso da chuva -- amaldiçoada por aqueles que desejam que ela só caia de noite ou, se tiver mesmo de cair a horas menos amigáveis, apenas onde faça falta (campos, albufeiras) -- obriga os portugueses a interromper temporariamente os ensaios para as férias de Verão. Com estas tépidas Primaveras a que nos vamos afeiçoando, a época balnear ocupa no mínimo metade do ano, e os areais que costumavam encher-se apenas em Agosto acolhem agora banhistas de Abril a Setembro. Talvez se deva lamentar o fraco empenho dos portugueses em diversificar as suas (in)actividades de lazer, mas quem mais sofre com o assalto contínuo às praias são as plantas dunares. Embora o problema seja atenuado pela instalação de passadiços nas praias mais concorridas, há plantas que se fizeram raras e poucas oportunidades terão de se reinstalar nos lugares de onde foram (involuntariamente) extirpadas.

A junça-da-praia (Cyperus capitatus), que é nativa de toda a região mediterrânica e, em Portugal, deveria aparecer do Minho ao Algarve, fez-se entre nós bastante esporádica. A crer no portal Flora-On, praticamente desapareceu a norte do Douro. As praias do litoral centro onde ainda persistem bons contingentes da espécie são aquelas que, pelos maus acessos e pela ausência de rede de telemóvel, são evitadas pelos veraneantes comuns. Planta de proporções modestas, com hastes que não ultrapassam os 40 cm, a junça-da-praia destaca-se da família a que pertence, em grande parte formada por espécies pouco vistosas, pela atraente folhagem glauca, semelhante à do narciso-das-areias (Pancratium maritimum). Tal como outras espécies que vivem em areias móveis, é dotada de um rizoma comprido, às vezes com vários metros de comprimento, podendo uma mesma planta lançar hastes bem afastadas umas das outras.

O nome junça pode ser dado a qualquer uma das dez espécies de Cyperus na flora portuguesa, das quais nove são tidas como autóctones e uma (Cyperus eragrostis) é exótica e assaz invasora. As três brácteas muito compridas onde se aninha a inflorescência são um distintivo traço comum a todas elas. Com a notória excepção da junça-da-praia, são plantas de terrenos húmidos, amiúde encharcados. A mais famosa espécie do género, que não pertence à flora portuguesa mas é cultivada em jardins aquáticos, é o Cyperus papyrus, originária de África e usada no antigo Egipto para produzir o papiro, suporte de escrita que foi um dos primeiros antepassados do papel.

3.5.17

Maias da Madeira

Este é um mês venturoso para as giestas, piornos e tojos. Com folhagem nova, alindam os taludes das estradas com racimos de flores de um amarelo sedoso. No campo, de espinhos afiados (os que os têm) para evitar o gado predador, rescendem a frutos verdes. E por todo o lado, mas em murmúrio, a tradição atribui-lhes o poder de esconjurar o mal. Noutros tempos, os ramos unidos eram também ágeis vassouras ou boa lenha para o fogão, e havia ainda espécies usadas no fabrico de tinta. Algumas, muito melíferas, constituem no início das Primavera fonte importante de alimento para as abelhas que, agradecidas, nem notam que as flores se abrem como se explodissem, soltando uma chuva de pólen que aterra no dorso dos polinizadores. Um truque que talvez justifique o sucesso destas fabáceas, de que a Península Ibérica e a região mediterrânica abrigam dezenas de espécies.

A giesta-da-Madeira (Genista tenera, a que a Flora de JT Press e MJ Short chama giesta de piorno) é um arbusto endémico da ilha da Madeira, ocorrendo em lugares soalheiros e secos de ravinas perto do mar e penhascos de montanha. Perene e coberto por um indumento acetinado, não cresce além dos 2,5 metros mas exibe flores grandes entre Março e Julho. Os frutos são vagens espalmadas, com um gancho na ponta e contendo muitas sementes acastanhadas.



Genista tenera (Jacq. ex Murray) Kuntze



A segunda leguminosa que vos mostramos hoje é também endémica da Madeira (e da Deserta Grande) - e, tal como a primeira, é conhecida na ilha pelo nome popular de piorno. Já se chamou Genista maderensis (Webb & Berthel) Lowe, assim como Cytisus maderensis (Webb & Berthel.) Masf., e com razão. De facto, as suas flores têm o cálice como os do género Genista, mas a semente é mais parecida com as do género Cytisus. Por isso, houve quem propusesse que deveria pertencer, com outras espécies das Canárias, a um género próprio, Teline.

Esta maia da Madeira (Teline maderensis) é um arbusto perene que pode chegar aos 6 metros de altura, de ramos penugentos e folhas trifoliadas, com folíolos mucronados de cor verde acinzentada. Prefere a laurissilva, mas também se encontra em escarpas junto ao mar, especialmante na Fajã da Ovelha e em São Vicente. As versões marítima e de montanha diferem sobretudo na cor do indumento, de prateado a castanho, e no tamanho do ápice aguçado dos folíolos. Pormenores que levam alguns taxonomistas a distinguir duas variedades, Teline maderensis var. maderensis e Teline maderensis var. paivae.


Teline maderensis Webb & Berthel.

25.4.17

Madeira Fern Fest (8)


Asplenium hemionitis (à esquerda), Asplenium anceps (à direita), Adiantum reniforme (em baixo)



As ilhas do mesmo mar sempre arranjam modo de se contaminarem uma às outras, e alguns dos fetos peculiares que vimos na Madeira, por muito entusiasmantes que fossem, não eram para nós novidade, tendo-os já encontrado nos Açores ou no Porto Santo. O que é na verdade injusto, pois a flora pteridófita madeirense, singularizando-se pela sua indisfarçável africanidade, não é inferior à açoriana. Como compensação, e quebrando a nossas regra de mostrar cada espécie uma só vez, recuperamos dois fetos macaronésios de vincada personalidade, desta vez fotografados na Madeira, e condimentamo-los com um terceiro que vale pela raridade, embora seja fácil de confundir com outros muito comuns.

Tanto o Asplenium hemionitis (1.ª foto) como o Adiantum reniforme (3.ª foto) se recusam a obedecer ao figurino habitual dos fetos: cada fronde é constituída por uma peça só, em vez de estar dividida em inúmeros pequenos segmentos. O nome vernáculo feto-folha-de-hera atribuído ao primeiro exprime não só uma óbvia semelhança como também uma real possibilidade de confusão, já que o Asplenium hemionitis pode, tal como a hera, agarrar-se aos muros ou atapetar o chão de um bosque com as suas folhas. Tapete curto, claro está, já que as populações deste feto costumam ser pequenas. E a confusão desfaz-se quando lhe espreitamos as pinturas de guerra no verso das frondes. Presente nos Açores, Madeira e Canárias, o feto-felho-de-hera tem também populações reliquiais na Argélia, em Marrocos e... em Sintra, único local do continente europeu onde a sua presença está assinalada.

O Adiantum reniforme, a que gostamos de chamar avenca-redonda, é fácil de encontrar na Madeira, sobretudo na parte norte da ilha, em muros e fendas de rochas, nem sempre em lugares sombrios. Tendo-o visto e fotografado no Porto Santo, já sobre ele aqui escrevemos.

O terceiro feto do nosso ramalhete, Asplenium anceps (2.ª foto), tem óbvios laços de seiva com o avencão (Asplenium trichomanes subsp. quadrivalens), que encontramos de norte a sul de Portugal continental, tanto em calcários como em xistos ou granitos. Um terceiro feto que só com dificuldade se distingue destes dois é o Asplenium azoricum. Sabe-se, aliás, que o A. anceps é um dos progenitores do A. azoricum, que por sua vez terá dado origem a outras espécies ou subespécies do grupo do A. trichomanes. Muitas vezes podemos separar as diferentes espécies usando um simples critério geográfico: em Portugal continental só existe, que se saiba, o A. trichomanes subsp. quadrivalens. Contudo, se estivermos nos Açores, convém fazermos uma análise menos preguiçosa, já que aí coexistem o A. azoricum e o A. trichomanes, e o problema repete-se na Madeira, onde convivem o A. trichomanes e o A. anceps. (Em ambos os arquipélagos ocorre ainda o A. monanthes, mas nenhum amador de fetos minimamente atento o confunde com qualquer um dos outros três.)

A boa notícia é que o A. anceps até é fácil de destrinçar do A. trichomanes por quem for munido de lupa e levar a lição bem estudada. As pinas médias do primeiro são em geral mais estreitas e compridas do que as do segundo; e, no A. anceps, os soros são rectilíneos, afastados do eixo da pínula de modo que as duas fiadas fiquem bem separadas (foto ao lado ou, em melhores condições, nesta página), enquanto que no A. trichomanes os dois soros basais de cada pínula (pelo menos esses) são claramente curvados, e as duas fiadas de soros estão muito próximas uma da outra (fotos nesta página ou nesta).

Como patriarca de uma linhagem de fetos bem disseminada na Macaronésia e na região mediterrânica, o A. anceps acusa o peso da velhice e mostra-se menos adaptável às mudanças do mundo do que os seus descendentes. Embora tenha sido reportado nos Açores, receia-se que esteja extinto no arquipélago. Presente em quatro das ilhas Canárias, em três delas (Tenerife, La Gomera e El Hierro) só se conhece uma população em cada ilha, sendo um pouco melhor a situação na ilha de La Palma. Na Madeira, por contraste, está amplamente distribuído no norte da ilha em lugares húmidos e ensombrados, mas não parece ser tão abundante como afirmam J. R. Press & M. J. Short no livro Flora of Madeira (National History Museum, London, 1994).