10.10.17

Malva das ilhas douradas


Lavatera olbia L.



As ilhas douradas são as de Hyères, na Riviera francesa, destino de veraneio para gente abastada, um eterno pôr-do-Sol numa esplanada com palmeiras, brisa tépida, mar rumorejante embalando iates adormecidos. Foi lá, dois séculos antes de o turismo ser inventado, que esta Lavatera olbia ganhou o nome que hoje ostenta. Olbia era o nome grego da cidade de Hyères, e nestas coisas da taxonomia botânica já Lineu dava o exemplo ao preferir um nome obsoleto, numa língua morta, à designação vernácula. O que neste caso pode dar confusão, pois existe na Sardenha uma cidade que ainda hoje se chama Olbia, mantendo esse nome desde os primórdios da civilização helénica.

O postal turístico do Mediterrâneo exclui a chuva. Talvez a água que corre das torneiras e enche piscinas não venha do céu, mas de mananciais subterrâneos inesgotáveis, que não têm necessidade do mau tempo (como chamam os jornalistas aos dias de chuva) para serem recarregados. É com surpresa que aprendemos que esta Lavatera olbia, mediterrânica de baptismo, gosta de sítios com alguma humidade ou mesmo encharcados, como sejam as margens de pequenos rios ou ribeiras. Haverá tal coisa nas ilhas de Hyères, a maior delas com 7 Km de comprimento? Talvez a proximidade da água doce não seja, para esta malva, um requisito essencial. Lembramo-nos de a ver, há meia dúzia de anos, junto à ribeira da Fórnea, na serra dos Candeeiros. Nessa altura, como quase sempre, nenhuma água corria no leito pedregoso, mas a memória do efémero caudal de Inverno era suficiente para atrair umas tantas plantas higrófilas. O segundo encontro, em Alcobaça, aconteceu num mês de Maio chuvoso, com ribeiras extravasando dos leitos e inundando caminhos, e já não pudemos duvidar da predilecção deste arbusto pela água.

Arbusto muito ramificado, capaz de atingir dois metros e meio de altura, com flores de 5 a 7 cm de diâmetro, a Lavatera olbia, que se dá melhor em substratos calcários ou argilosos, ocorre na metade oeste da bacia mediterrânica, tanto no norte de África (Árgélia, Marrocos, Tunísia, Líbia) como na Europa (Itália, França, Espanha e Portugal). No nosso país está assinalada na Beira Litoral, Estremadura, Alentejo e Algarve. Pode confundir-se com a L. arborea, que no entanto é de menor porte, menos ramificada, apresenta flores com uma coloração diferente (as pétalas têm uma mancha escura, quase negra, na base), e prefere (embora não exclusivamente) areias litorais.

3.10.17

Os ursos chamam-lhe um figo

Esta é época propícia ao fabrico de alguns licores e aguardentes, um expediente para aproveitar frutos demasiado maduros ou que não são suficientemente doces para outro tipo de consumo. Por exemplo, a safra do medronho (Arbutus unedo) não tardará a começar para que as bagas de casca rugosa e cor-de-fogo não se percam desfeitas no chão. O amadurecimento dos frutos, começados a produzir há um ano, decorre em paralelo com a floração do ano corrente, e por isso recolhê-los é tarefa que exige cuidados. Em poucos meses haverá nova aguardente de medronho, feita com mais paciência do que esforço. Na Península Ibérica só ocorre esta espécie de Arbutus, mas outrora em Espanha já houve outras duas: Arbutus alpina L., cujo fruto parece um apetitoso araçá negro, e Arbutus uva-ursi L., com bagas vermelhas muito vistosas e comestíveis, mas igualmente pouco saborosas em cru. Apesar das semelhanças com o medronho, estas duas espécies foram mudadas em 1825 para o género Arctostaphylos, mantendo-se os epítetos específicos. Ambas parecem apreciar solos calcários de montanha, e foi nesse tipo de habitat na Cantábria que vimos os exemplares das fotos.


Arctostaphylos uva-ursi (L.) Spreng.




Os arbustos de A. uva-ursi são de porte rasteiro e têm folhas persistentes, de textura coriácea, que se arranjam em hélice ao longo do caule. As flores nascem na Primavera em cachos de delicadas campainhas com os bordos revirados, um formato típico na família das ericáceas.

As referências sobre nomes botânicos que consultámos indicam que a designação genérica arctostaphylos significa literalmente cacho de uvas (staphyle) de urso (arktos). O epíteto uva-ursi diz exactamente o mesmo, mas em latim. Peculiaridades de um tempo em que o latim (com uns pozinhos de grego) era a língua culta obrigatória para quem queria comunicar em ciência, como é hoje o inglês.

26.9.17

Anémona das neves


Anemone pavoniana Boiss.



Estávamos no local errado e no dia errado, e os dois erros, cancelando-se um ao outro, permitiram-nos ver uma flor impossível. No início de Maio, a Anemone pavoniana, endémica da cordilheira cantábrica, não deveria estar em flor a 2000 metros de altitude, quando ainda os picos se cobriam por esfarrapados mantos de neve em degelo acelerado. E de facto não estava: as duas plantas que encontrámos, abrindo cada uma a sua flor como quem espreita cautelosamente por cima de um muro, vinham apenas fazer o reconhecimento do terreno. E o terreno não conferia com aquele que lhes é prescrito nos manuais. A Flora Ibérica, prestigiada publicação à qual todas as plantas do reino de Espanha e da república de Portugal devem obediência, determina que a espécie vive apenas em rochas calcárias, inexistentes no Pico Três Mares e nos cumes vizinhos. Dando-se conta do equívoco, e sob ameaça de pesada coima, era natural que estes emissários, de volta à base, alertassem os seus companheiros para a inadequação do lugar. É pois de crer que, mesmo depois de toda a neve derreter, mais nenhuma destas anémonas tenha ousado florir por essas bandas.

Quem quiser ver a Anemone pavoniana em floração na altura própria, e num habitat mais conforme às preferências decretadas para a espécie, deve aguardar pelo início de Junho e visitar então um dos muitos afloramentos calcários que preenchem o extremo norte da Península, desde o País Basco às Astúrias. Com caules que podem atingir os 50 cm de altura (as que vimos, ainda incipientes, dificilmente chegavam aos 10 cm) e flores brancas de 3 a 4 cm de diâmetro, esta é uma das sete espécies ibéricas do seu género. Para lá dos Pirenéus, em França, Itália e nos Balcãs, surge uma sósia da A. pavoniana, a A. baldensis, moradora em prados alpinos. Não sendo fácil detectar diferenças entre as duas com base apenas em fotos, é irresistível apontar que a (acidental?) presença da primeira no Pico Três Mares parece mais de acordo com a ecologia da segunda.

19.9.17

Uma távoa para el-rei


Dois dos últimos teixos (Taxus baccata L.) dos Açores



Há por toda esta ilha em redondo muita e grossa madeira de cedro, sanguinho, ginja, pau branco, faias, louros e, sobre toda, a madeira de teixo, somente no Pico, dos teixos que estão sobre a freguesia da vila de São Roque, da banda do norte, légua e meia da dita vila para dentro da serra, onde se acham paus de teixo muito direitos, que parecem paus de pinho e quase servem para mastros de caravelas pequenas, e de grossura no pé até (...) palmo e meio, e daí, adelgaçando para cima, pera a ponta, a modo de paus de pinho, e na nascença deles, da semente que deles cai, como semente de tamujo, não parecem senão pinhos. Há troncos destes que acham ainda agora debaixo da terra, de oito e dez palmos de comprido e de três palmos de largo, os quais servem pera escritórios e mesas muito ricas e fasquiaria de escritórios, por ser madeira de muito preço, pela qual razão se não corta, senão com expressa provisão do provedor da Fazenda de Sua Majestade, e da que é avaliada na Alfândega paga o que a colhe a metade ou, de duas távoas, uma para el-rei, de seus direitos.
Gaspar Frutuoso (1590). Saudades da Terra (Livro VI, capítulo 41)
O teixo, talvez por prometer durar até ao dia do juízo final, era plantado tradicionalmente nos cemitérios. Apesar da sua longevidade, é de entre as nossas árvores nativas uma das mais raras e perseguidas. Em todo o território nacional, só na serra do Gerês existem populações viáveis, capazes de subsistir e de se reproduzir sem ajuda humana. Na serra da Estrela conhecem-se apenas indivíduos isolados, que têm sido duplicados por estaca para reintrodução na natureza. O gradual desaparecimento do teixo em espaços naturais não se deve apenas, como poderia julgar-se pela citação de Gaspar Frutuoso, ao seu uso em marcenaria de luxo. Houve uma perseguição activa por parte dos pastores, que, sabendo-o altamente venenoso, receavam as consequências mortais para o gado que dele fizesse refeição.

O teixo também é nativo dos Açores e da Madeira, e também nesses arquipélagos, pelas mesmas razões que ditaram a sua sorte no continente, ele se fez de uma extrema raridade. A última contagem, reportada em artigo publicado já em 2017, indicava que na Madeira existiam 58 indivíduos adultos, acantonados em ravinas inacessíveis. O relevo menos acidentado das ilhas açorianas não proporcionou igual refúgio - e, de todas as ilhas onde se sabe ter existido (Corvo, Flores, Faial, Pico, São Jorge e São Miguel), só no Pico, onde ocorria em maior quantidade e a sua madeira foi explorada até meados do século XVIII, o teixo não está ainda extinto. Só quando o último teixo morrer, de pé ou tombado, de morte natural ou provocada, é que se pode declarar o óbito da espécie. São quatro ou cinco as árvores que resistem, meio decrépitas, afastadas umas das outras, incapazes de dar semente.

O Jardim Botânico do Faial, apostado em evitar o previsível desfecho funesto, lançou um 2013 um projecto de reprodução vegetativa desses últimos teixos açorianos. O objectivo final é recriar populações que possam perpetuar-se sozinhas. No início de 2017, trinta jovens teixos foram plantados no Pico, em terreno controlado pelos serviços regionais do Ambiente (ver notícia aqui e aqui). É um novo futuro para uma árvore que parecia condenada. Só falta, literalmente, que o projecto dê frutos - ou seja, que entre as árvores clonadas haja indivíduos dos dois sexos (coisa que ainda não se sabe) para ser possível a produção de sementes. Poderão um dia as futuras gerações de açorianos, contemplando rebentos de teixo, concordar com Gaspar Frutuoso em como eles se parecem com jovens pinheiros?

A quem se interrogue sobre a importância de salvar nas ilhas uma espécie que, com maior ou menor abundância, é espontânea em quase toda a Europa, duas respostas se podem dar. A primeira, generalista, é que qualquer extinção local de uma espécie representa um empobrecimento do mundo natural, com consequências que não sabemos avaliar. A segunda é que, tanto no caso do teixo como no de outras espécies que colonizaram as ilhas, a estirpe insular representa um património genético distinto do da continental, mesmo que isso não tenha reconhecimento taxonómico nem se traduza em diferenças morfológicas óbvias. E na verdade, segundo um artigo publicado em 2010 (Taxus baccata in the Azores: a relict form at risk of imminent extinction), o teixo açoriano, além da sua especificidade genética, distingue-se pelo menor tamanho das folhas. O autores do artigo concluem mesmo que ele representa uma linhagem mais antiga do que os actuais teixos do continente europeu e do norte de África.

Numa terça-feira de Agosto, faz hoje quatro semanas, Pedro Casimiro (director do Jardim Botânico do Faial) e Cátia Freitas (uma das responsáveis pelo Banco de Sementes do JBF) apresentaram-nos esses venerandos e ameaçados teixos. Nunca poderemos retribuir por igual tamanha amabilidade. A expedição, algures no Pico, a uns novecentos e tal metros de altitude, foi acompanhada por uma chuva mansa, que esmoreceu gradualmente, e por um nevoeiro algo mais persistente que nos impediu de tirar fotos decentes. Os três exemplares que planeávamos visitar, representando 3/4 dos teixos conhecidos na ilha, situam-se todos em manchas de arvoredo rodeadas por pastagens de bovinos. A postura agressiva de umas tantas vacas em defesa das crias ditou um desvio do percurso, ficando assim um dos teixos por visitar. O prémio foi terem o Pedro e a Cátia descoberto um teixo que nunca tinham visto, o que representa um reforço de 25% da população conhecida da espécie. Será esse o teixo-fêmea que faltava detectar? Prémio adicional foi termos encontrado, no vale encaixado de uma ribeira sem água, um solitário exemplar de Euphrasia grandiflora, espécie raríssima no Pico. E fartámo-nos de ver erva-do-capitão (Sanicula azorica), mas sem surpresa para ninguém.

Devíamos talvez ficar agradecidos às vacas por tão frutuosa alteração de planos. Sucede que foi a monocultura da vaca, intensificada a partir dos anos 80 do século passado com os subsídios comunitários, a ditar em pouco mais de 20 anos uma redução de 50% do que restava da vegetação natural dos Açores, desbastada a eito para a abertura de pastagens. O processo foi particularmente notório e intenso na ilha do Pico. De modo que estes fragmentos de bosques delimitando pastagens, ainda que belos, são parte de uma coisa muito maior que se perdeu para sempre, e que há trinta ou quarenta anos ainda existia. Tudo para fazer as vacas felizes.

13.9.17

Trovisco rosado

De acordo com estudos experimentais que simulam a rotina de polinizadores, as abelhas têm uma preferência inata por certas cores, aquelas que nas flores costumam estar associadas a mais néctar, ou a um néctar mais nutritivo, ou a outras recompensas. Esta é uma enorme vantagem para a abelha iniciante na lida de recolha de alimento, como o é um mapa actualizado numa viagem a uma região mal conhecida. Mas, de facto, a cor da flor não é a única preocupação da abelha. A visão das abelhas em voo só lhes permite identificar a que flor se dirigem quando já estão quase em cima dela. E, nesse momento, há que corrigir o ângulo de navegação, manter o equilíbrio enquanto reduzem a velocidade, localizar um lugar vago e seguro na flor (que não raro abana com o vento) para aterrar, e fazê-lo sem a danificar. Se a flor for perfumada e exibir uns salpicos de cor que contrastem, assinalando o caminho até ao néctar ou ao pólen, a manobra é naturalmente mais fácil. Se, apesar de seguirem o mapa, a flor onde aterram for afinal desconhecida mas se revelar um pote de guloseimas, as abelhas não desperdiçam a oportunidade de lá voltar: sacrificando a rapidez da colheita, memorizam os traços mais significativos da flor, apreendem demoradamente as mudanças de parâmetros da cor com o ângulo de abordagem e a incidência da luz, e traçam uma rota optimizada para a reencontrar (algo que os instrumentos de GPS não sabem ainda fazer sozinhos).

Pelo que vemos por aí, as plantas mantêm constante a cor das suas flores, e este é talvez o sinal mais fiável para o polinizador as identificar. Mas a longo prazo, algumas alterações genéticas podem introduzir variações que se revelam lucrativas, e a selecção natural tenderá a valorizar as características da flor que mais agradam aos visitantes. As primeiras flores, que se acredita terem sido esverdeadas, evoluiram para atrair polinizadores; por isso, o modo como estes vêem e distinguem as cores determinou a paleta dominante (amarelo, violeta, branco, vermelho) que hoje reconhecemos nas flores silvestres. Nos troviscos, de que em Portugal há registo de duas espécies, a Daphne laureola e a (muito mais comum) Daphne gnidium, só conhecíamos flores brancas ou de cor creme. Na nossa visita à Cantábria em Maio aprendemos que este género sabe tirar proveito de mais cores.


Daphne cneorum L.




Circulávamos numa estrada íngreme no Parque Natural dos Collados del Asón, ladeada por montes calcários, quando, pelo rabo do olho, nos pareceu ver umas manchas de um tom de rosa invulgar. Parámos, claro, para averiguar, e foi uma agradável surpresa descobrir uma população magnífica deste trovisco com flores carmim. É da natureza humana apreciar o que é belo e raro: já se sabe que, se por cá as flores de Daphne fossem cor-de-rosa, seriam as esbranquiçadas que nos entusiasmariam. Mas ainda não estava tirada a terceira fotografia do novo trovisco, e já a polícia de trânsito surgia ao fundo da ladeira para inquirir daquele estacionamento inusitado. Felizmente havia mais exemplares no topo da estrada, e a sessão de fotos pôde aí completar-se em sossego. Notem como as folhas são coriáceas e formam arbustos rasteiros, com as flores (sem pétalas; o tubo rosa, muito perfumado, é feito de sépalas) agrupadas em grinaldas nos ápices dos ramos. Nesta excelente página sobre a flora do Mediterrâneo listam-se mais algumas espécies de Daphne com flores invulgares.

5.9.17

Pensamentos roxos



Viola bubanii Timb.-Lagr.



Tal como o sedentarismo provoca a obesidade, também a domesticação fez inchar as violetas de forma doentia, a ponto de elas renegarem as origens e passarem a chamar-se amores-perfeitos. Houve um tempo em que essas flores, banalizadas em canteiros geométricos e arrumadinhos, eram o epítome do kitsch, do colorido extravagante, do gosto preguiçoso e padronizado. O que ofendia não era cada amor-perfeito em si (embora alguns exagerassem nas cores e no tamanho) mas o uso desregrado dessas flores e a ausência de quase tudo o resto. Porém essa fase, que durou décadas, pretence ao passado, e hoje em dia já compensa gastar tempo a admirar amores-perfeitos nos poucos locais onde ele resiste. Não passou a haver maior variedade de flores em espaços públicos, muito pelo contrário, mas agora o que se vê são petúnias. Petúnias de todas as cores e só petúnias, em jardins públicos, em floreiras à porta dos restaurantes, em rotundas pequenas e grandes, em tristes varandas suburbanas.

Os amores-perfeitos pertencem ao género Viola, e foram criados ao longo dos séculos XIX e XX, por hibridação e selecção, a partir de espécies como a Viola tricolor, Viola lutea e Viola altaica. O nome violeta, usado para designar as pequenas flores silvestres, pareceu aos horticultores insuficiente para abarcar as novas e avantajadas flores de jardim. Daí que cada língua tenha inventado para elas um termo novo mais ou menos evocativo: em português amores-perfeitos, em francês pensées, em castelhano pensamientos, em inglês pansies. Tirando o nome português, os outros têm a mesma raiz, e derivam todos do nome francês: "pansy" resulta da tentativa (falhada) dos ingleses de dizer "pensée", e até nestas coisas de flores foram os franceses, e não os espanhóis, que estiveram na raiz do pensamento.

O pensamento, na acepção castelhana do termo, deveria pois referir-se apenas às violetas cultivadas. No entanto, a crer no portal Anthos, há quem assim designe também as violetas silvestres. Ainda que seja educativo lembrar que essas velhas aristocratas descendem de floritas plebeias, é pena que se perca, na linguagem corrente, a diferenciação entre as duas linhagens. Mas esse é um problema dos espanhóis, não nosso.

Problema nosso é que esta violeta ou pensamiento de flores tão distintivas, de seu nome Viola bubanii, que acenando-nos numa berma de estrada nas Astúrias nos obrigou a uma paragem de emergência, também deveria existir em Portugal, no Parque de Montesinho, e nos últimos anos ninguém tem dado por ela. Será que apenas por cá esteve em visita efémera, na década de 1980, para que Carlos Aguiar pudesse então assinalá-la [PDF - ver pág. 133] como novidade para a flora portuguesa? Também em Espanha ela não é abundante, distribuindo-se muito esporadicamente pelas montanhas de Orense, Léon e cordilheira cantábrica, e atravessando com dificuldade a fronteira francesa.

Para uma violeta silvestre, a V. bubanii tem flores grandes, de 2 a 3 cm de diâmetro, que se apresentam com um ar muito vertical e empertigado, rematadas por um esporão cónico bem afiado. É uma planta perene, de solos ácidos, que vive em prados de montanha ou, a altitudes mais baixas, sob abrigo de matos em sítios com alguma humidade.

29.8.17

Samba a duas cores

Muitas sociedades, embora lamentavelmente não todas, asseguram hoje a cada indivíduo o privilégio de poder ter, durante quase duas décadas, uma única obrigação: a de se instruir. Nesse longo período escolar não precisa de produzir nada, nem de pagar o que consome; basta que seja curioso, que adquira conhecimentos, que aprenda a usar o seu talento. Para contrariar alguma tentação familiar de fazer render os filhos em trabalho precoce que impeça a escolarização mínima, esta é obrigatória. O sucesso deste esforço colectivo da civilização depende, claro, da qualidade dos professores e alunos, e exige uma hierarquia criteriosa nos temas a ensinar. Há que começar pelo mais simples, conteúdo que é por vezes difícil de estabelecer e nem sempre consensual. Por exemplo, em matemática, pode iniciar-se com várias instâncias em que surgem números naturais e fracções, com a comparação de formas, com a detecção de simetrias. Pouco depois, espera-se que utilizem a linguagem e as operações da aritmética com alguma desenvoltura. Só mais tarde se lhes pede que treinem o pensamento geométrico, que entendam o que é uma demonstração matemática ou que apliquem o que sabem. Uma aprendizagem mínima deve garantir que os jovens prossigam a sua vida com autonomia e êxito; frequentemente, os contributos que daí surgem, em ciência ou noutros domínios, retribuem em excesso o investimento educativo feito pela comunidade.

Do mesmo modo, para muitos amadores de botânica, a atenção às plantas silvestres começa com um capítulo fácil: as orquídeas. São de uma família evolutivamente muito avançada, que exibe estratégias de disseminação fascinantes e fáceis de observar. Além disso, têm flores sofisticadas que se avistam sem dificuldade, entre Janeiro e Agosto, nos afloramentos calcários do país. Havendo tantas espécies de orquídeas no mundo (umas vinte mil espécies distribuídas por cerca de oitocentos géneros), quem quiser pode gastar nelas todo o seu interesse pela botânica. Outros haverá que virão a apreciar fetos e gramíneas com idêntica paixão. Nenhum deles, contudo, ficará indiferente a uma orquídea que vê pela primeira vez.


Dactylorhiza sambucina (L.) Soó



Na nossa visita à Cantábria e às Astúrias, em Maio, foram tantas as novidades florísticas de que ainda nem vos demos notícia que estas orquídeas, abundantes nos prados de montanha em Somiedo e parecidas com a Dactylorhiza insularis, têm estado à espera de vez. Há um pormenor curioso nesta espécie de Dactylorhiza que nunca tínhamos observado. Em populações grandes de orquídeas é frequente surgirem umas poucas plantas com flores hipocromáticas (brancas ou em tons muito mais claros do que o usual). Na espécie das fotos, a variação relativamente à norma (flores amarelas com o labelo pintalgado de vermelho) é feita por flores vermelhas cujo desabotoar se adianta ligeiramente em relação ao das flores amarelas. Tudo indica que a cor rubra, mais vistosa, ajuda a atrair os polinizadores para um manto de flores que, se fosse todo igualmente amarelo-esbranquiçado, talvez passasse despercebido. Como estas flores não oferecem nenhuma recompensa às abelhas, seja em néctar ou em agasalho, as flores de cores diferentes permitem também distrair os insectos do logro em que vão caindo ao visitá-las.

O epíteto sambucina remete para um arbusto que decerto o leitor conhece. Lineu, em 1755, descreveu esta orquídea a partir de exemplares da Suécia, e pareceu-lhe que a inflorescência recendia a sabugueiro (Sambucus nigra). Pena que, ao contrário da tabuada que aprendemos na escola primária, não tenhamos boa memória para cheiros, menos ainda para o do sabugueiro.

22.8.17

Águas entubadas



Bolboschoenus glaucus (Lam.) S. G. Sm.




Desde os humildes regatos aos grandes rios, os cursos de água assumem os mais variados tamanhos, mas todos eles porfiam por alcançar o mar. Alguns fazem-no directamente, outros entregam-se como afluentes aos que já romperam caminho para a costa. Com o crescimento das cidades, as ribeiras de pequeno caudal que as atravessavam foram sendo entubadas, por serem incompatíveis com o cimento e o asfalto ininterruptos sobre os quais nos habituámos a fazer a nossa vida. Uma vez escondidas dos nossos olhos, podiam ainda, ignominiosamente, ser convertidas em esgotos. Os lugares onde as águas, finalmente a descoberto, chegavam ao mar (ou a um rio que, pela sua dimensão, não pudesse ser ocultado) tornavam-se então focos de sujidade e de cheiros pestilentos. Porque a espécie humana sente uma repugnância paradoxal pela porcaria que ela própria produz, não é essa a vizinhança preferida de quem vai à praia para banhos de sol ou de mar. A solução era prolongar o entubamento pelo mar fora, fazendo com que a água choca saísse a umas centenas de metros da praia.

Felizmente muito mudou nas últimas décadas, e essa é uma conquista civilizacional que merece ser celebrada. Em Gaia e em Matosinhos, muitas ribeiras foram despoluídas e (parcialmente) desentubadas, desaguando agora no areal sem incómodo para os veraneantes e sem lhes pôr a saúde em risco. É até didáctico: às crianças que se entretêm a fazer castelos de areia podem agora os pais mostrar um rio em miniatura chegando à foz. Entre a flora dunar beneficiada por esta melhoria conta-se a Honckenya peploides, que vive em areias de beira-mar mas precisa de molhar as raízes em água doce. Em Matosinhos não é invulgar encontrá-la debruçada nestes ribeiritos que meandram preguiçosamente pelo areal. A sul do Douro ela rareia, e há dois ou três anos que não conseguimos detectá-la nos pontos do litoral gaiense onde costumava existir. Oxalá reapareça. Em compensação, na Aguda, onde um curso de água recém-libertado forma um pequeno charco na areia, surgiu uma população, concentrada mas numerosa, de uma das ciperáceas mais raras do país, o Bolboschoenus glaucus. Trata-se de uma planta com caules com cerca de 1 m de altura, de secção triangular, encimados por espiguetas dispostas em fascículos longamente pedunculados; no seu congénere B. maritimus, bastante mais comum em Portugal, todas ou quase todas as espiguetas são sésseis. As duas espécies vivem sempre com um pé na água, mas o Bolboschoenus glaucus é exclusivo de águas doces e o B. maritimus (que existe com abundância, por exemplo, na lagoa de Paramos) dá-se bem em águas salobras.

Se as plantas se conformassem com o que os estudiosos escrevem sobre elas, o Bolboschoenus glaucus nunca apareceria em Gaia, pois a Flora Iberica apenas reporta a sua ocorrência no centro e sul do país. Mas, para uma espécie cuja área de distribuição natural vai da Europa até à Índia, não custará muito transpor as curtas distâncias dentro deste nosso ocidental rectângulo.

8.8.17

Flor das lampreias



Hieracium umbellatum L.



Na verdade, as lampreias que sobem o rio Minho e ficam presas nas redes armadas nas pesqueiras nunca olham para estas flores. Não porque sejam pouco dadas à contemplação, ou porque os desesperados esforços para se libertarem da armadilha não lhes permitam essa disponibilidade mental. Afinal que sabemos nós do que vai na cabeça dos bichos que matamos para comer? O desencontro entre a lampreia e este (chamemos-lhe assim) dente-de-leão é ditado pelo desfasamento temporal. É entre Fevereiro e Abril que a lampreia sobe o rio Minho para acabar nas mesas dos restaurantes a 35 euros a meia dose; e é de Julho a Setembro, quando o caudal baixa e as pedras à beira-rio escaldam ao sol, que o Hieracium umbellatum se entrega à tarefa de florir. Seria a mais tardia das plantas que enfeitam muros e rochas das pesqueiras, não fosse, em algumas lagoas e charcos, a florida companhia da Nymphoides peltata.

Uma outra asterácea de grandes capítulos amarelos, a Inula salicina, compartilha com o Hieracium umbellatum este habitat semi-natural em que os muros parecem, como as rochas, ter saído das mãos do Criador. Começa a florir dois meses antes, e diferencia-se pelas brácteas involucrais mais desenvolvidas e pelo disco central formado por florículos tubulares -- em contraste, os capítulos do Hieracium umbellatum são formados apenas por florículos ligulados (fotos 4 e 5 acima). As duas asteráceas que a lampreia nunca pôde ver também não são vistas por muita gente. A maioria das pesqueiras são pouco acessíveis, e quase ninguém as frequenta passada a faina da lampreia. Nas pesqueiras de Monção e Melgaço tanto uma como outra são fáceis de encontrar, mas de resto, a fazer fé no portal Flora-On, só aparecem em pouquíssimos lugares do Minho e de Trás-os-Montes. A sua preferência por afloramentos rochosos no leito dos grandes rios -- o tipo de habitat que o criminoso programa nacional de barragens tem vindo sistematicamente a afogar -- não lhes augura longo futuro.

Hieracium vem do nome grego para o falcão, ecoando a crença de que esta ave se alimentava da planta para tornar a vista mais apurada (como antes se dizia às crianças que as cenouras fazem os olhos bonitos). Assim se explica que os anglo-saxónicos chamem hawkweed às plantas do género. A outra coisa que sobre elas convém saber é que têm uma taxonomia terrivelmente enredada. A hibridação, a poliploidia e a apomixia (capacidade de produzir sementes férteis sem fecundação) fazem com que o número de espécies descritas, muitas delas pouco se distinguindo umas das outras, se situe, só na Europa, entre 5000 e 10000. Nenhuma flora que tentasse descrever todas estas espécies teria qualquer utilidade prática, de modo que os especialistas se puseram de acordo em destacar um certo número de espécies principais, suficientemente disseminadas, que se foram combinando para dar origem a todas as outras. Na Península Ibérica supõe-se que essas espécies principais não sejam mais que 26, contando-se entre elas o Hieracium umbellatum. O formato das folhas, a disposição dos capítulos em umbelas (i.e., elevando-se todos mais ou menos à mesma altura - confira aqui ou aqui) e a ecologia permitem-nos supor, com alguma confiança, que foi essa a espécie que encontrámos nas pesqueiras. Certeza, porém, é coisa que não está ao nosso alcance.

1.8.17

Lindas azedas

As folhas trifoliadas lembram as de um trevo, mas pela flor, com cinco pétalas venadas de lilás, percebe-se que não é do género Trifolium. Esta espécie de Oxalis, que Lineu descreveu em 1753, é comum em bosques antigos e sombrios da Europa e Ásia. Por cá, só se conhecem registos dela em regiões mais elevadas do Minho onde ainda sobram alguns carvalhais não perturbados. As fotos são de plantas da Cantábria, que aí convivem com o visco dos druidas e muitas outras herbáceas famosas.


Oxalis acetosella L.



As flores das aleluias são tacinhas com cerca de 2 centímetros de diâmetro que nascem entre Março e Junho, logo que a camada de neve começa a diminuir mas antes que as densas copas das árvores impeçam a luz de se infiltrar através da ramagem. Os pedúnculos das flores são altos e organizam-se com as folhas num arranjo interessante. Durante o dia, os folíolos formam um leque aberto e plano, num esforço conjunto para reduzir a sombra que cada folha pode causar nas restantes e, desse modo, garantirem a captação de toda a luz disponível. Para isso, as nervuras das folhas são ramificadas, permitindo à planta tê-las mais largas. Sobressaem, então, dessa mesa de folhas as flores brancas e pequeninas. Pelo contrário, à noite ou quando chove, os folíolos dobram-se (note-se a nervura central vincada em cada folíolo, o que facilita o origami) e, enquando agasalham a base da planta, impedem que o frio intenso, o vento forte ou a água em excesso os estraguem. Depois da floração, amarelecem e a planta hiberna, vivendo dos nutrientes que guardou no rizoma até à Primavera seguinte.

Admitindo que a maior parte dos detalhes morfológicos das plantas são de algum modo favoráveis às respectivas espécies, perguntamo-nos por que razão as folhas de algumas espécies são divididas em folíolos e que benefício retiram da coloração vistosa no Outono (em geral, tons de vermelho, laranja ou amarelo), precisamente quando estão prestes a cair.

O mais certo é que as tonalidades outonais sejam apenas resultado da interrupção da fotossíntese e da produção de clorofila, numa época do ano em que há cada vez menos horas de sol e a planta não pode despender a energia que uma folhagem vasta exige. Além disso, uma tal pigmentação também deve ser resultado de a planta sugar das folhas todos os nutrientes que ainda lhes restam antes de as soltar. Sim, tudo isso determina o tom de verde menos viçoso das folhas envelhecidas. Mas quanto a colorirem de vermelho ou púrpura folhas que estão à beira de morrer, isso parece a alguns botânicos exigir esforço. Sendo assim, a planta deveria retirar daí algum proveito. Mas qual? Há especialistas que afirmam que a cor está associada a substâncias anti-oxidantes, que protegem a base da planta e aumentam a eficiência com que absorve nutrientes durante o período invernal de dormência. Mas, dizem, para isso resultar, é essencial que tais folhas não sejam comidas pelo gado ou outros animais, nem se arruinem por servir de ninho para os ovos de insectos. A cor funciona, por isso, como um alerta de perigo, que dissuade possíveis predadores. Há outros cientistas, porém, que afirmam o contrário: em vez de tentar afastar, a cor forte chama a atenção de pássaros e outros bichos, que assim reparam nos frutos inconspícuos que caem com as folhas, os comem e disseminam. Controvérsia à parte, algumas destas vantagens decerto se aplicam a plantas que, como a O. acetosella, formam tapetes de folhas tenras, têm frutos pequeninos e vivem em habitats de solo rico mas com pouca luz.

Quanto à forma das folhas, em particular a opção por dividi-las ou enfeitar-lhes as margens, há decerto também vantagens a assinalar. O mais provável é que resultem de adaptações ao habitat, seja para as folhas não se destruirem com o vento, seja para reduzirem a perda de água, ou ainda para optimizarem a exposição solar. As folhas de plantas de bosques sombrios, como a O. acetosella, tendem a ser maiores mas mais finas, e a divisão em folíolos confere-lhes uma resistência que talvez não tivessem se fossem inteiras. Neste capítulo, a vulgar relva de estádio é das plantas mais especializadas e bem sucedidas: para fazer face ao cortes persistentes, as folhas são estreitas e longas, com textura rugosa e margens cortantes, e o crescimento centra-se não na ponta mas na base da folha. É como se crescêssemos apenas junto aos pés.